Segunda-feira, Novembro 17, 2008

Borboletas que se acotovelam


Esperar um e-mail. Um telefonema. Ficar no vácuo. Cair como Alice no buraco da árvore. Sem saber o que se vai encontrar lá embaixo. Por que não podemos conviver com a tranqüilidade de prever o futuro próximo? Já que o futuro longínquo seria assaz prejudicial. Mas os próximos três meses não fariam mal. Tempo suficiente para saber se sim, se não.

Uma proposta de trabalho. Uma manifestação de amor. Uma notícia de alguém doente. Um filho que está fora.

Borboletas que se acotovelam. Barbantes que se enrolam. Lombrigas bagunceiras. Ácidos que zoam com as paredes do estômago.

Sabendo de antemão o que estaria por vir facilitaria a digestão. Frustrações bem mastigadas são mais fáceis de engolir. Porque o difícil é lidar com aquilo que ainda não sabemos. Fantasiamos. Elucubramos. Viajamos. Piramos.

E se pendemos para o lado dos nossos desejos efusivos? Podemos incrementar o tamanho da queda. E se, cautelosos, puxamos para o lado contrário? Adiantamos e até estragamos aquilo que nem chegou a acontecer.

Situação também conhecida como extrema ansiedade. Há um remédio paliativo: bromazepam. Funciona que é uma beleza. Temporariamente. Você dorme acordado. Enquanto isso, o máximo que pode acontecer é: nada. Nada que desvie a rota do destino.

Depois desse estado zumbi, acordar para a realidade é a parte mais difícil. Por falar nela, o que é exatamente a realidade? É o que acontece sincronicamente ao mesmo tempo agora comigo, com você e com o resto da humanidade? Isso é realidade? Tenho dúvidas.

Será que as coisas existem quando não as presenciamos? A Física Quântica diz que não. Elas não existem. Já tentei entender, mas não consigo. Só sinto que pode ser assim. Ainda pequena, certa vez, tive esse insight. Mesmo antes de saber que existiria uma ciência para teorizá-lo.

Será que nossos pensamentos influenciam nessa “realidade” como apregoam os defensores do “pensamento positivo” e a própria Física Quântica de Botequim?

Ah, quantas voltas para tentar aplacar um coração fora de esquadro.

Escrever é o que me sobra, a despeito das borboletas, das lombrigas e da acidez. O Word como interlocutor. Coitado. Oferece suas páginas em branco sem se fazer de vítima. Não conheço ninguém mais generoso. Vc escreve e ele agüenta quietinho.

Música. Música também pode ser tudo nessa hora. Mas cuidado para não errar na escolha. Vai depender do tipo de ansiedade. Que pode exigir uma melodia mais calminha ou um ritmo mais cadente ou até mesmo uma batida pauleira.

Quem tem bichinhos de estimação também pode se valer deles. Pra mim, abracinho apertado de filho pequeno resolve muito. Mas eles crescem e já não é a mesma coisa. Se houver uma criança à vista, eu cato.

Sair correndo. Para muitos também funciona. Gritar. Dançar. Se embriagar. Mas essa última opção é perigosa se for usada com freqüência. As lombrigas ficam ainda mais festejantes.

Passear no bosque enquanto seu futuro próximo não vem. Aproveitar e expulsar as borboletas. Como faz?

12 comentários:

Ana disse...

Adoraria poder dizer com toda a sinceridade " Do que essa doida está falando, lombrigas festejantes????!!!!"

Ô Cris, qdo vc descobrir como faz, socializa, tá?!

Abraços,

Analu

Vilma disse...

As borboletas constumam durar apenas 24 horas, quanto às lombrigas costumo saciar as minhas com bolo trufado gelado...

Renata disse...

Acho que, de repente, não expulsar as borboletas seria uma solução...O que elas fazem não é ruim, colocam a gente em um estado de alerta que, muitas vezes, acho necessário...

O que seria de mim sem elas?? As borboletas, as lombrigas festejantes, os ácidos que corroem...rssssss...

Mas uma coisa é certa, apertar filho pequeno é um bom tranquilizante!!!!!!!!

Adoro seus textos!

Renata.

Fábio Adiron disse...

Ansiodorum...dizem que é bom.

As minhas lombrigas eu mato na frente do fogão. As borboletas eu levo para passear na lua.

Anônimo disse...

legal seu texto, Cristiana.
sincronicidade é a palavra quando
entro por aqui.

um grande abraço
Sandra

Guta Nascimento disse...

fala, cris!
passei aqui só pra dizer que bloguei lá no migrante seu sambablog. adorei. ks.

LeticiaBúrigoTK-1288 disse...

Cristina,
Nesta ansiedade, no mundo que não cessa, no acotovelar de borboletas, peço PAUSE.

http://educacaocondutiva.blogspot.com/2008/10/assino-com-um-arroba.html

Um beijo com amor,
Leticia

Lúcia Soares disse...

Não criar expectativas. Não desconfiar. Ligar o f...-se". Alguma coisa tem que dar certo!

Riuston - Livraria Cultura disse...

Oi Cristina! tudo bem?

Nesta sexta e sábado, dias 28 e 29, a Livraria Cultura preparou um projeto bem bacana chamado Vira Cultura. A loja do Conjunto Nacional, em São Paulo, vai “virar a noite” e ficará aberta durante 37 horas. Será possível assistir a vários eventos literários, de arte, teatro e música, o dia e a noite, tudo gratuito.

Dentre os eventos, teremos leitura de trechos do clássico de Dostoiévski, Os irmãos Karamazov, em comemoração à nova edição, entre outros lançamentos e encontros com autores.

Será um prazer ter você conosco! Se puder ajudar a divulgar aos seus leitores, também agradeço! É uma super dica para quem gosta de literatura!

Se precisar de mais informações, só falar!

um abração e obrigado!

www.riuston.com.br

Patrícia Carvoeiro disse...

Ai, você traduz tão bem alguns dos meus momentos. =)
Adoro te ler.

Vanessa Aguiar disse...

Oi Cris. Foi um grande prazer descobrir a blogueira por trás da twitteira.

Do pouco que acompanho de suas micro-histórias (ai, e agora? com hífen ou sem hífen?) em 140 caracteres, de capitus, baratas, johnny deep, maysa... já gostava muito de sua forma de escrever. E desde ontem tenho me identificado muito com textos como "chorar no chuveiro", "amiga épra essas coisas", e tantos outros.

Prazer em conhecer!

Joseane Oliveira dos Santos disse...

Olá, tive o prazer de conhecer seu blog. Parabéns você é uma pessoa realmente muito inspirada, pois seu blog é muito bom.
Vou acrescentá-lo a minha lista de blogs amigos.

http://arteducadora.blogspot.com/
http://bibliotecachampagnat.blogspot.com/