Quarta-feira, Setembro 17, 2008

A tua barba de cada dia


Entro no banheiro para trocar a toalha, mas o que eu quero é ver você. Manhã de segunda. Hora de se transformar em um homem civilizado, responsável e trabalhador. Para isso, ejeta a espuma na palma da mão esquerda. Repousa a direita por cima e com as duas, suavemente, lambuza o rosto. Espalha o mousse de forma a cobrir os pêlos que não sabem a diferença entre domingo preguiçoso e dia em que os bancos abrem.

Meu pai usava o pincel para aerar e espalhar o creme, formando um chantilly. Em transe, eu babava. Os movimentos circulares. As subidas e descidas. E a lâmina perigosa que podia cortar o rosto dele. Como de fato aconteceu algumas vezes. E a pedra-ume vinha estancar o sangue. Uma pedra que não fere, mas cura. Só o meu pai poderia ter uma assim.

Você estica o pescoço. E no sentido de baixo para cima o percorre com o aparelho até o queixo. O barulhinho dos pêlos sendo cortados pela base. Esse barulhinho de homem. Depilação feminina ou é silenciosa (gilete) ou é histérica (cera). Mulher não tem mesmo meio-termo.

Pequena, deitava ao lado dele sobre o tapete felpudo da sala, enquanto na vitrola tocava concertos para violino, sinfonias. Eu ficava ali encaixada entre o seu braço esticado sob meu pescoço e o seu tórax. Ele olhava para cima e viajava com Mendelssohn. Eu, que não enxergo de longe, colava meus olhos no seu maxilar e via, um a um, os fios nascendo de cada poro. Absorta, encantada. Não havia coisa mais bonita de se ver nascer.

Você estica os músculos da região entre o lábio e o nariz para a lâmina não encontrar obstáculos. Infla a bochecha e faz uma bolha de ar interna. A lâmina sobe. Desliza. Desce.

Agora é aquela hora em que há vestígios de espuma espalhados por toda a região. Às vezes resta um cavanhaque, às vezes costeletas. Poderia fotografar e usar como inspiração para quando você estiver longe.

Oferece as duas mãos em concha à torneira e se inunda com a água gelada que transborda entre os dedos, molha os pelos dos braços e escorre pelos cotovelos. A toalha felpuda que eu acabara de trocar agora nas tuas mãos te toca enquanto sinto inveja de um pedaço de pano.

A essência de mentol arde na minha boca imaginária que te beija. Ouço os tapinhas que se dá no rosto. Geladinho, receptivo, irresistível. Lamberia sentindo ainda as minúsculas protuberâncias que resistem.

Para o meu deleite, à tarde elas estarão ainda mais salientes. Obrigando você a repetir o ritual na manhã seguinte. E será assim até o último dia. Por enquanto, me despedirei de você com um beijo no rosto para guardar o suave pinicar na boca.

À noite, a barba por fazer arranhará minha nuca, meus lábios, meu corpo. Acordarei no dia seguinte com a pele exposta. Seqüela de quem dorme com você.

21 comentários:

Ana disse...

Bela e amorosa descrição de um ritual masculino...

Vilma disse...

As sequelas da barba são melhores que as sequelas do ronco, pelo menos não ficamos com cara de coruja no outro dia.

Cristiana Soares disse...

Huhauhauhauhauhauahua!

Carola disse...

Eta que tá numa fase inspiradíssima!

J. Caribé disse...

Nossa, que bonito!
Muito mesmo!

Atilio disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Atilio Baroni Filho disse...

Muito bonita mesmo, para nós que precisamos fazer (teoricamente) todos os dias... ou "dia sim dia não"... ou uma vez por semana... erm, veja bem, é preciso abstrair. :)

Esse tipo de atividade "altamente entrópica", das que é preciso serem feitas repetidas vezes pois os resultados não são duradouros, muitas vezes são rebaixadas por serem trabalhosas ou sem propósito aparente, mas muitas filosofias de vida e religiões presam o cotidiano acima de tudo como caminho para ser feliz, e o cotidiano é feito principalmente dessas pequenas coisas que fazemos o tempo todo.

carina paccola disse...

Adorei, Cris. Eu sempre achei o máximo aquele creme branco no rosto do meu pai. Uma vez, enquanto eu escovava os dentes, espalhei a espuma no meu rosto (argh) e, com o cabo da escova de dentes, "fiz a minha a barba" (hehe).

Milton Ribeiro disse...

Texto belíssimo. Nunca minha filha terá tais lembranças. uso barba desde que me conheço e às vezes vou a um barbeiro. Mas há outras coisas: as cócegas da barba, as mãos dela fazendo carinho sob os pelos. Ora, sempre dá-se um jeito.

Era Curitiba? Ô cidade provinciana!

Vinícius K-Max disse...

Cris, eu particularmente odeio fazer isso que te agrada ver. Mas agora graças a beleza do teu texto, o chato ritual ganhou ar de charmoso e quaaase me senti um privilegiado por ser homem. :)

oscilantemente disse...

olha isso!!! meu barbeador elétrico nunca me pareceu tão sem charme, como agora.

Museu do Cinema disse...

Cristiana, nunca mais o ritual de fazer a barba será o mesmo depois de ler esse minucioso ensaio sobre o barbear.

Se vc foi dura com os homens com o texto "Por que é tão bom ser mulher? ", se redimiu aqui. Me impressiona sua delicadeza e sensibilidade.

Brown disse...

é engraçado como a gente esquece essas coisas...
era apaixonado por essa visão...adorava acompanhar as manhãs do meu pai se preparando...
hoje em dia faço o mesmo e nem noto, não tiro nada das minhas manhãs...
e ainda acho estranho qdo pequenos amores me observam, e acham lindo...
hahaha
boas essências, visuais e olfativas...obrigado pelo presente...
pra mim é sexta feira ^^

bjk =o*

Madame Mim disse...

Acho lindo barba de um dia.
Que jeito mais lindo de descrever um ato no qual nunca prestei muita atenção.
beijos

Jorge Cordeiro disse...

uau, que texto inspiradíssimo!!!

Carol disse...

Ai, que bonito!
Eu adoro barba por fazer, de um dia pro outro, de uma semana, um mês... Mas eu gosto da barba acabada de fazer também... Te entendo!

Beijo
Carol
www.meuveneno.com

andrea disse...

Também sou vulnerável a esse feitiço de homem fazendo barba, desde a infância. Esse feitiço se intensificava ante o risco do barbeiro de posse da velha navalha. Ui. Que beleza e requinte de descrição, Cris! Adorei!

Carla Martins disse...

Meu pai é barbudo e meu marido tem pouca barba e, além disso, é publicitário. Por isso, não convivi com esse ritual. Mas, pelo jeito, vc descreveu tudo suuuper bem, como sempre.

beijo!

Flavinha disse...

Cris, amei o texto! Lindo! Me tocou profundamente! Lembrei muito do meu pai, que antigamente usava a espuma... Gostava de ver! Hoje acho muita graça, pois ele aderiu ao barbedor elétrico e de vez em quando coloca pilha no aparelho e sai fazendo barba pela casa! Uma cena tão oposta àquela do ritual de antigamente!
Também pensei no marido lindo, que me arranha à noite!
E lembrei que minha irmã, quando pequena resolveu fazer barba: arrancou um tampo no queixo, tadinha...
Beijos

Joseph disse...

Ia passando por aqui, parei e entrei. Comecei a ler. Sentei para ler melhor.
Que belo texto! Você tem talento e pode voar mais alto. Não fique aí. O ceu é o limite.

silvia disse...

Adoro seu blog e esse texto sobre o homem fazendo a barba, uau!
Moça, que talento lindo o seu!
Invejas reverentes dessa sua admiradora.