Sexta-feira, Agosto 08, 2008

A fila anda é o caramba


Apresentei um ao outro. A intenção era removê-los do celibato. Na primeira noite, reconheceram-se na possibilidade. Numa segunda, partiram para a concretude. Numa terceira, não sabiam o que fazer um com o outro. A partir daí, desempenharam um patético movimento de ir-não-indo-talvez-fondo.

Sugeri a ela que se mostrasse mais acessível, já que ele até ensaiou um convite para o depois. Ela cedeu uns graus e fez-se mais responsiva. Mas para ele pareceu ser tarde demais. Nesse meio tempo já havia voltado à toca. Os dois hoje mal se falam, protegidos pelo constrangimento. E rodaram a catraca.

A escritora de livros para adolescentes, em uma sessão de aconselhamentos sentimentais no Youtube, diz para seu público:

- “Não” não dói. No dia seguinte sai no xixi. Você nem vai lembrar mais!

Opa. “Não” dói sim. Tudo bem que não devemos deixar que ele nos imobilize. Mas dói. Ainda mais se é o primeiro de nossa vida. E como assim “eu nem vou lembrar mais”?

Lavou tá novo. Essa é a premissa das relações pós-modernas. Luto pela perda pra quê? Afeto? O que é isso? Ah, você quis dizer sexo. Selvagem. Com múltiplos orgasmos e performances pirotécnicas. Intimidade pra quê? Somos desinibidos e bem resolvidos. É tirar a roupa e créu. E se não houver amanhã tanto melhor. Amanhã pra quê?

A fila anda. É a deixa do seu melhor amigo depois daquele pé que você ganhou. E, assim, de cinismo em cinismo vamos nos esbarrando. Sem apego, sem vínculo, sem reconhecimento do outro. Sem nenhuma humanidade para atrapalhar.

Tsc, tsc, tsc. Milhares de almas solitárias nessa imensa malha contemporânea.

Porque é tudo fake. Porque não existe relacionamento, por mais físico e curto que seja, sem entrega mínima. Porque para se entregar é preciso intimidade. E para isso é preciso criar vínculo. Desculpa, mas o ser humano é assim. Incluindo os homens. O resto é história para impressionar os amigos na mesa de bar.

Mesmo quando o objetivo é o desdobramento de uma balada, um orgasmo solto no ar ou algo para entreter os sentidos enquanto o efeito do álcool é soberano... supondo que seja isso o que se queira de fato... mesmo assim os corpos envolvidos estão registrando sensações de contato. Eles querem pertencimento, troca, acolhimento, fusão. Essas coisinhas. E as almas os acompanham com prazer.

Sobra você. Bobão. Achando que está no controle da situação.

A globalização ricocheteia como um bumerangue, a comunicação se horizontaliza via internet, as células-tronco se multiplicam, mas cá estamos, intimamente, querendo uma criatura com quem possamos trocar palavras e experiências, em quem possamos confiar por mais que alguns dias ou meses.

Porém o que há disponível hoje é o amor fluído, oportuno e utilitarista.

Para que amar se podemos banalizar? Trocamos a entrega pela defensiva. A dedicação pela autonomia. Somos fodões. Livres, lindos e poderosos. É só conferir nos perfis das redes sociais.

E estamos evoluindo. Saímos da era do “ficar” para a era do “pegar”.

11 comentários:

Serbão disse...

li o texto com uma sensação de desconforto.
e isso é bom.
:)

Fábio Adiron disse...

Nesse processo de involução qual será o próximo passo para trás? (pronto, coloquei a interrogação do jeito que você gosta)

carina paccola disse...

Adorei, Cris! Você e sua incrível capacidade de reunir em palavras os nossos sentimentos. beijos. estou com saudades

Euaqui disse...

menina, al estar pós-moderno. não há freud que dê conta. buscar um sentido que nos transcenda sem simplesmente lançarmos no outro a nossa razão de ser. está muito sofisticado ser humano.

Viva disse...

Tenho certeza de que existem homens que pensam assim como nós. Só não sei onde eles se escondem. Ótimo texto.

laís D'Andréa disse...

Eu sou antiga; prefiro continuar assim, ainda que isso custe muita chateação, tiração de sarro e afins.

Drika Bruzza disse...

Ei, que legal essa sua casa! :D

Sabe, escrevi um livro (só não sei nem como começar a história da publicação...) infantil: A Lenda do Rei Azul =]

Que legal tua entrevista ;D

Um grande abraço e principalmente: OBRIGADA pela força ='}

Recebi parecer favorável do Juiz... dá uma passadinha nos cometários, atualizei ali como estão as coisas ^^

Bjo!

Carla Beatriz disse...

"Saímos da era do “ficar” para a era do “pegar”."

Essa frase resumiu tudo. As pessoas não estão nem parando para pensar no que estão fazendo. Estão simplesmente fazendo.

Eu, que nem cheguei à era do "ficar", nunca curti isso, não sei como encarar a era do "pegar". Acho melhor continuar celibabatária como estou. Dá menos trabalho. ;-)

Beijos

Cris disse...

Perfeito esse texto.


meu email : janecricri@hotmail.com

Vinícius K-Max disse...

Esse blog é o achado da semana. Sem palavras pra dizer o quanto seus textos me arrepiam - sem exagero!

Muito mais sucesso pra você, Cris!

Anônimo disse...

Pois é, eu tento unir o útil ao agradavel. Eu não vou á uma balada para "pegar" aquela garota, ou, "ficar" com uma outra garota alí.
Mas eu "pego" a minha mulher, "fico" com a minha mulher. Uso todas essas artimanhas da modernidade para deixa-la mais confortável dentro da nossa realidade.

Acho que fiz uma confusão e posso não ter conseguido lhes dar a ideia central que eu gostaria.

dúvidas néa, gugumelo_sdp@hotmail.com