Quarta-feira, Novembro 14, 2007
Por que coisas estranhas me amam?
Ganhei uma cama da minha mãe, que nunca desejou uma filha hippie, sem estrado na vida. Em seguida me desfiz dela (da cama, já que não dá para doar a mãe para a casa de praia da vizinha). Gosto de dormir com o colchão no chão. Apenas um tapete entre os dois.
Certa manhã carioca, acordei, me espreguicei e antes de exclamar “Que lindo dia!”, abri os braços e os joguei para fora dos limites do confortável retângulo. Com a mão esquerda, pendente, a tocar no chão, senti algo molinho e gelado.
Ainda mais para o sono do que para a vigília, apertei a “coisinha” num intuito de aquecê-la com meu calor. Instinto que tenho de fazer o bem sem ver a quem. Porém, fui realizando que a temperatura da tal coisa não mudava. Tive a infeliz idéia de olhar para “aquilo”.
Lá estava a lagartixa morta, de barriga para cima. Dei um pulo da cama e fiquei quicando pela casa enquanto esfregava a mão na camiseta para ver se saia. Mas o que deveria sair?
Quando adolescente, numa noite chuvosa, cheguei em casa, passei pelo banheiro, e fui direto para o quarto dormir. Nessa época a cama ainda era de solteiro e tinha pés (a opinião da minha mãe ainda prevalecia). Tirei a roupa e me enfiei debaixo do lençol com desenhos juvenis.
Senti algo úmido e frio sobre uma das minhas coxas. Pensei: “Deve ser resquício da água com que lavei minhas lentes de contato”. Esfreguei o lençol por cima para a "aguinha inocente" secar. Não secou.
Caí em mim. Agarrei a coisa por cima do lençol e levantei o corpo para vê-la. Sem muita coragem, abri devagarzinho a mão e vislumbrei algo marrom. Foi o suficiente para berrar tão alto que poderia ser ouvida até a padaria. O pai veio acudir. Entreguei para ele aquilo-seja-lá-o-que-fosse e sai pela casa, adivinhem... quicando. Seminua.
Era uma lesma, pensei. Uma lesma. O animal mais nojento, repugnante e rastejante que pode existir na natureza. No almoço do dia seguinte, meu pai revelou que não era uma lesma, mas uma coisa bem pior. Uma sanguessuga. Fiquei aliviada. Qualquer coisa, menos uma lesma.
Morando em Florianópolis, num charmoso bangalô, perto de uma lagoa potável, entre muitas árvores da mata nativa, certa madrugada, acordei com um barulho no meu quarto. Levantei pé ante pé. Pisando bem de levinho para que pudesse usar bem os ouvidos, já que não posso contar com a minha visão de 14 graus, ainda mais no escuro.
Desci a escada o mais vagarosamente possível. Como nos filmes de suspense. Num dos degraus, ao pisar em câmera lenta, senti algo... bem... molinho (por que essas coisas são sempre molinhas?) Num ato reflexo de fazer inveja a qualquer lutador de artes marciais, puxei a perna. Voltei pelos degraus e acendi a luz. Não havia nada lá.
Mistério.
De repente ouço outro barulho e desço para conferir a segurança das minhas filhas. Quando olho para uma delas, dormindo pesadamente, vejo uma coisa preta, muito preta, bem do lado da sua cabeça.
Um morcego! Era um morcego!
Puxei a menina, que acordou desnorteada.
"Um morcego! Um morcego!"
E o pobre mamífero com asas deve ter pensado: “Uma humana! Uma humana!” Saiu voando com o radar avariado.
Esperei alguns minutos até o dia clarear. Toquei a campainha do vizinho. Um rapaz bonito e atlético. Disse a ele: “Tem um morcego lá em casa!” Li a expressão do seu rosto que dizia: “Ai, minha mãe! E agora? Vou ter que provar que sou macho!”
Fiquei com dó dele. Mas havia duas crianças nessa história a serem protegidas.
Ao rapaz dei uma vassoura. Ele me pediu um balde. Não me perguntem para quê. Levei as meninas para a casa dele, envoltas ainda em cobertores.
Voltei a me localizar atrás do herói. De repente a coisa negra sai voando desembestada! O rapaz solta um grito de mulherzinha assustada! Refleti:“Acho que estou mal parada”. Ele logo se recompôs e voltando a sua voz grave procurou me passar confiança.
Matamos o morcego. Cometemos um crime ambiental, vim saber mais tarde.
Não fosse o bastante, dias depois, ao acordar, dei de cara com uma coisa ruiva, extraterrestre, que dançava hipnoticamente na minha frente e que a internet me contou se chamar aranha-armadeira. Sua mordida pode ser a última da vida de uma pessoa.
Fui obrigada a cometer mais um crime em legítima defesa. Matei-a num golpe só. Com a velha e boa arma de piaçava. O corpo joguei no mato. Livrei o vizinho dessa, coitado. Ele não agüentaria duas "coisas" num mês só.
Noutro dia, já aqui em São Paulo, ao abrir a porta do armário da cozinha, senti uma coisa fazer plóc na minha cabeça e depois pléc no chão. Minha experiência disse antes mesmo de ver “a coisa”: “Lagartixa! Lagartixa!”. Gritava enquanto batia na minha própria cabeça, no lugar onde ela havia se amparado antes da grande queda.
Por que, ó senhor? No mato ou na cidade. Por que essas coisas estranhas me perseguem?
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20 comentários:
Nenhum deles é estranho, são todos pertencentes ao reino natural.
Estranho seria acordar com um inca venusiano deitado na cama (se bem que certos seres são muito similares a esses...só chamando o National Kid)
Segundo uma amiga que não tem medo dessa "turma", os bichinhos só aparecem para quem tem medo !
E eu, que odeio qualquer vida animal menor que um chiuaua (excluindo passarinhos), vivo encontrando esse pessoal. Já teve uma perereca morando dentro do armário da minha cozinha !
Beijinhos arrepiados de nojo.
Para mim, o pior de tudo é barata. Eu nem consigo matar com chinelo. Mato afogada no inseticida. De lagartixa eu até gosto porque ela come insetos. Eu tive um namorado que morria de medo de lagartixa. Eu era o "homem" da casa quando aparecia uma. Elas não fazem nada de mal. Tá certo que nunca encostei numa delas...
Que azar mesmo, só espero que nunca tope pela frente com a Bolha Assassina!
Cristiana!!
Adoro deu blog, de vez em quando eu venho aqui dar uma espiada...
Adorei seu texto.
quem me ama mesmo são as pererecas... e eu as odeio!
Principalmete qdo pulam (com aquelas penonas abertas) na minha cabeça, enquanto eu como cachorro quente, na cantina do colégio!
Bj pra vc!
Cristiana,
Aranha, sanguessuga, lagartixa, morcego...
Faltaram cobras e sapinhos!
Minha relaçções são boas com formigas... rs!
(Até já escrevei a respeito.)
Quanto ao colchão no chão, esse é o meu estilo, há mais de vinte anos!
Vou ver a Comunidade que te fizeram.
Abraços, flores, estrelas
É, parece que eles te perseguem mesmo!
E o grito de mulherzinha assustada do rapaz...sei não, hein!? É nessas horas que a verdade aparece.
Ótimo texto.
Abraço.
Cris, como é que você consegue transformar um assunto nojento desses numa crônica deliciosa?!!!
Beijão!
Eu também usava o colchão no chão, em meu quarto acarpetado, ainda nos tempos da ECO. Acordei certa noite com uma coceirinha insistente no ouvido, tão insistente que eu tinha até sonhado com ela. Ao coçar, ainda sonolentos, meus dedos encontraram um ser esperneante, lá dentro... Era uma baratinha, pequena o suficiente para entrar lá, mas nem por isso menos nojenta (principalmente pq relutou bastante em sair). Após uma breve luta, que envolveu cabeçadas, gritos e corcoveios, ela foi morta a golpes de chinelo e ódio, me obrigando a passar algumas horas lavando o ouvido. Mas prefiro isso à aranha-armadeira. Vc teve sorte, Cris.
Bello!! Essa foi de arrepiar! A "coisa" não só te amou como quis fazer parte do seu ser. Argh!
Marta, nojenta mesmo é a lesma... ela deixa um rastrinho gosmento...
Hehehe... Téo, depois desse dia eu nunca mais vi o rapaz com olhos de desejo...
Edson, depois eu vou escrever uma sobre cobras e sapos... minha infância foi povoada por eles... mas nessa época quem atormentava "as coisas" era eu. Talvez depois a natureza tenha se vingado... hum.. não tinha pensado nisso...
::Carina::, depois explique melhor essa parte: "Principalmente qdo pulam ... na minha cabeça, enquanto eu como cachorro quente, na cantina do colégio!" Hahahahahaha....
Osvjor, a bolha assassina é diversão perto dessas "coisas" estranhas que o Fábio insiste em dizer que são "naturais".
Flávia, pererecas são bonitinhas.
Carina, para lidar com baratas eu tb viro homem :-)
Bichos sempre fizeram parte da minha infãncia. Cresci na Amazonia e lembro de ter uns oito anos e nunca entrar no quarto sem antes olhar debaixo da cama para ver se nao tinha cobra enrolada no pé da cama. Lagartixa e louvadeus são animais do bem e dizem que é sinal de sorte.
Tirando baratas,que tenho nojo, o resto até que levo numa boa
nossa, Cristiana
essa jogada com os bichinhos estranhos é da pesada!
a que mais me marcou:
estava sentada num gramado
à noite
em frente ao predinho
onde morava com outros estudantes,
fazia geologia... tava sozinha, triste pra cacete, e de repente passa em cima do meu pé a maior aranha que já vi na vida! rapidinha como um raio, me enoja e some... fico quieta, não me movo. Até hoje não sei como não gritei de pavor!
O mais engraçado é que na tarde desse dia tinha visto uma cena muiiito ruim. Uma mulher provocara um sujeito baixinho dentro da padoca, na rua da Consolação... eu tava no ponto do ônibus, bem em frente. O sujeito reagiu dando um murro, de mão fechada, direto na boca da mulher, provavelmente prostituta. Esguichou sangue. Ninguém na padaria se meteu, ficaram de espectadores da cena. Sem pensar, eu corri lah, entrei no meio, entre os dois. Um outro estudante, conhecido meu, me puxou dali, me enfiou dentro do ônibus e foi me esculachando direto até a escola. "Nunca mais faça isso, garota burra. Se não te arrasto de lah, podia sobrar pra vc o murro, uma faca, um tiro!!Podia ateh sobrar pra mim!!". Fiquei calada. Mas não me arrependi. Se fosse meu amigo (não um conhecido) acho que talvez o mandasse à merda.
À noite me apareceu a aranha gigante. Não me picou, não tentei me livrar dela. Seria armadeira?
ps: depois disso, tinha um medinho dos insetos me aparecerem tb dentro do quarto. Mas nem por isso deixei de dormir, como vc e o bello, num colchonete no chão.
desculpe o comentário longo!
bjs
É Cristiana, vc tem histórias nojentas para contar...
Mas incrível mesmo é o poder de escrever que tens, textos dramáticos, engraçados, espirituosos e agora arrepiantes.
Me senti num filme de Hitchcock.
bjs
muito boa essa história, vc tem uma relação muito próxima com esses insetos rs. Olha mas eu simpatizo muito com largatixas, desde a infancia nunca tive coragem de matar nenhuma, muito pelo contrario costumo rir com a "cara de medo" delas
Afe!!!! Eu teria tido vários ataques histéricos!
Mas, dormir a um tapete do chão, onde essas coisas rastejantes me achariam fácil, fácil...jamais!
Nessa, tô com a sua mãe! hehehe
beijos, querida!
Cristiana,
gostei do modo como você comentou a respeito de "Jó", o texto publicado por mim.
Hoje falo de um tema que me parece te toca: família.
Se puder, leia.
Abraços, flores, estrelas..
sensível e nojento, adorei.
eu tambem adoro dormir sem cama--so no colchao, la amebaixo no chao...mas e por essas e outras que desisti...detesto essas surpresinhas...
mas a surpresa do seu texto foi boa!
Que bicharada, hein, rsrs.
Adorei!
Acho lesma uma criaturinha nojenta tbém,mas não tive o azar de ter uma tão perto.
Nunca tive problemas com insetos, só com morcegos, que são nojentos demais.
Eu quase cometi um crime ambiental !!!
Me incomodaram tanto que tbém escrevi sobre eles:
http://diariodoamanha.blogspot.com/2008/01/sobre-coisas-que-fazem-o-planetinha.html
Bjos
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