Procuro debaixo da cama, mas só encontro monstros. Será que a paixão se escondeu no limbo junto com o amor-sépia? Odeio estar apaixonada (mentindo). Então devo estar feliz (enganando-se).
Quanto mais procuro algo ou alguém que me arrebate, mais sinto que só eu mesma já será o bastante. Pois assim tem sido. O bastante para se levar uma vida besta.
Para que tantos anos vividos? Para transformá-los em anos falsamente inesquecíveis? Hein, meu amigo Pentium D? Que estou pagando em 10X. Mas se soubesse que jamais me abandonaria, como sei agora, o pagaria à vista.
A paixão continua lá, vermelha como carmim. Atraente, viva, com a boca aberta e a língua a serpentear. Eu é que não consigo tocá-la com os meus músculos alongados em câimbras.
Nos filmes, quando o protagonista está pendurado em um abismo, o coadjuvante se debruça em terra firme, estica bem os dedos até, enfim, alcançá-lo. Alívio na platéia.
No meu caso com a dita, acontece o oposto. Quanto mais eu perfilo meu corpo em sua direção e ela chega até mesmo a me respingar com seu sangue quente e gostoso, mais distante nos tornamos. Acho que vou cair.
Essa é uma distância tão desmesurada que me força a transformá-la em um drama mexicano. Quem sabe assim as moléculas que nos rodeiam se apiedam e constroem, uma agarradinha a outra, uma escadinha até a formação de uma sinapse. Uma conexãozinha já terá valido.
Ai, paixão que não me arde, que me ausenta, que me deixa transparente, inconsistente. Sinto o vácuo embrulhar o ventre.
Vou dormir, porque assim eu vou morrendo um pouquinho a cada vez. Entre uma não-paixão e outra. Esquecendo todas as que se foram. Não lembrando as que poderiam ter sido.
O cansaço é tão grande que apelo para uma forma de expressão que nem é minha. Um texto que mais parece de outro autor. Instigada que sou por um surto de vazio mortal. Para me pendurar na vida de algum jeito. Um jeito cifrado que só eu entenda.
Porque tenho vergonha de expor humanidades que não me vendem bem.
Estou mergulhada mais do que imaginava na cultura das aparências. Não sou fodona como eu supunha. Pronto, agora todos já sabem.
Desculpe, querido leitor. Você que chegou até aqui com a sensação de estar indo em direção a um endereço errado. Veio confirmar o nome da rua e o número? A boa notícia é que você realmente está no destino errado. A má é que esse erro te trouxe ao meu avesso.
Perdão por trazê-lo até aqui por nada. Por uma paixão que nem existe.

17 comentários:
Oi Cris! É a Ani da comu de PC. Blzinha?
Já tinha bisbilhotado seu blog outras vezes e adoro a maneira como vc escreve, os temas,... Tdo!
Criei um blog pro Luquinhas, depois passa lá pra conhecer me diz o q achou.
Um bjo.
oi cristiana, virei admiradora silenciosa dos teus escritos desde que pousei aqui por conta do blog da revista Zé Pereira uns meses atrás (a rede realmente funciona... ainda me surpreendo!). mas o 'destino errado', por sorte foi certeiro, e me fez lembrar de um poema bem no estilo 'um inglês que aprende sobre o Tao', do qual gosto muito. é do Paulo Henriques Britto:
Sete sonetos simétricos, VII
A escuridão começa pelas bordas
e vai seguindo até chegar ao centro,
lá onde uma semente aguarda a hora,
tranqüilamente, sem medo do escuro:
pois é da natureza das sementes
se afastar da luz, mergulhar no úmido,
sepultar-se por toda uma estação.
No entanto, neste caso a escuridão
é de outra espécie, mais seca e mais rasa,
uma que avança devagar e sempre,
alheia a qualquer propósito ou causa,
até só restar pedra sobre pedra.
Mas a semente espera. Ela é insistente,
e acerta mesmo sem saber que erra.
bom, é isso. até agora 'Primitivas, graças a Deus!' e 'Cobrador para quem precisa' estão na minha lista dos relidos sem trégua. obrigada!
tenho acompanhado também o blog do livro 'Por que Heloísa'. me deu uma baita vontade de conhecê-lo. após comprar e ler, escreverei. quando der, se puder, visite o blog do livro que vou lançar em novembro, a fada inflada: www.afadainflada.blogspot.com. é uma produção independente e o blog está sendo fundamental na divulgação.
um beijo e inté,
luiza
Così è se vi pare
Queridona,
Fiquei com discretas lágrimas ao canto dos meus olhos apaixonados demais.
Mas é que é esta mesmo a sina das paixões: vêm de mais ou de menos, nunca são equilíbrio.
Trocaria de lugar contigo por algumas horas, se fosse possível.
Beijos mui admirados de seu talento e sensibilidade,
Affonso.
... e a paixão
hoje/
prá alguém/
nesse mundo quebrado
existe?
dura mais que uns minutos?
se existe/
é o que houver
de mais bonito e de mais triste.
um abraço procê
gosto dos seus textos
Fico muito feliz que você tenha gostado. Nada melhor do que a aprovação de uma jornalista!
Vlw a passagem por lá! Apareça sempre, será bem vinda.
Bjo!
Querida amiga, você é uma mulher apaixonante... Desejo que a próxima paixão esteja bem próxima mesmo...
Um grande beijo, sua sempre apaixonada
muito legal esse blog.favoritei !
Pode parecer mentira, mas isso descreve o que estou sentindo no momento...
Às vezes me pergunto: Qual o motivo de procurar o que não existe? Será masoquismo?
Bem, ainda não encontrei a resposta...
Mas, tenho certeza que um dia conseguirei alguma pista!
Parabéns pelo texto.
Amei, como sempre!
Beijos.
Também o teu avesso me parece belo.
Tem arte!
Abraços, flores, estrelas..
Oi,querida, vim ler...deixo forte e fraterno abraço.
Você um dia me disse que preferia a tranqüilidade da não-paixão ao desespero que via no meu coração. Pode ser. Sinto saudade da sensação de paz das raras vezes em que não estava apaixonada. Quero essa paz agora.
beijos
Que raridade é essa? Uma redatora que sabe escrever! Há anos eu não via isso.
Se o Jayminho diz uma coisa dessas quem sou para contestar ?
Elogio desse tipo vindo dele, dispensa qualquer loa adicional
Olá...Vim parar aqui, por indicação no blog ESCRIBA! E me encantei... vocês está de parabéns pelos post... está em particular, fez com que eu me encontrasse totalmente dentro dele....
vou vir sempre! boa sorte
leandra
Cristiana,
"- Venha até a borda.
- Não, vamos cair.
- Venha até a borda.
- Não, vamos cair.
Ele foi até a borda. Eles o empurraram e ele voou."
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918), poeta francês.
Use as suas asas!
...é isto mesmo, parece que tudo se resume no óbvio e simples: o que mais queremos, é aquilo que não temos, e : é difícil querer, aquilo que se pode ter.
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