Sexta-feira, Agosto 24, 2007

O velho Samuca era "o cara"


A diversão predileta do meu avô era queimar as canelas dos netos com a brasa do cigarro. E o pior é que me lembro disso com o maior carinho. As mães protestavam: “Ô, papai!” E ele a se rir.

Então virava um jogo de pega-pega. A gente sabia que quando estava perto dele tinha que ficar ligada. Às vezes eu fingia que estava distraída só para puxar a perna rapidinho bem na hora do ataque.

Isso o fazia feliz. O que custa agradar o velho? Suas gargalhadas descortinavam dois dentes em cima e dois embaixo. Dentadura para ele não tinha motivo de existência. A Corega já teria falido. E como o próprio dizia: “Quem tem dente chupa cana, quem não tem come banana”.

Esse meu avô era dos poucos parentes dos quais me orgulho. Aposentado da Rede Ferroviária do Brasil, fumava quilos de cigarros por dia e escarrava em todo o quintal (o que apavorava as mães quando viam a criançada brincando naquela terra infectada).

Com seu inseparável violão, vivia sentado na cadeira de praia de alumínio, mesmo a quilômetros do litoral, cantando músicas de serestas. Sua voz ainda ecoa nos ares do K11.

Ele tinha um viveiro cheio de passarinhos. Trocava a água, o alpiste e limpava os excrementos das aves todos os dias. E tinha uma arapuca para pegar os pardais desavisados. Nunca gostei de pássaros presos, mas os do meu avô tinham o privilégio de tê-lo como tutor.

Meu avô Samuel. Usava calças de tergal e suas pernas tão magras se dobravam, enquanto andava, de um jeito como se o recheio do corpo fosse feito de arames. Eu achava aquilo bizarro. Ver um fantoche gigante a se mover sozinho é tudo o que uma criança quer.

Mas a melhor parte era quando ele me pedia para lhe apresentar o meu quadro especial. Eu abria minha vitrolinha portátil, botava o LP dos Secos & Molhados e, com a cara pintada tal e qual, dublava o Ney Matogrosso com todo o misancene que tinha direito.

Samuel ria que se ria. Daquele jeito impagável. Prometeu construir um palco para minhas apresentações, no quintal. Espero que ele esteja ouvindo isso lá de cima. Pois ainda está me devendo essa.

O velho Samuca tinha uma Olivetti onde escrevia suas crônicas. Uma vez contou que viu um Curupira atrás da casa, de madrugada. Essa história gerou várias laudas e comentários na família. O que mais uma neta pode querer, senão um avô insano?

Vivia doente. Era frágil fisicamente. E gritava de lá: “Henedinaaaaa!!” E minha avó saía correndo para socorrer as vontades de Samuelzinho. Para os netos ela nem dava bola.

Eu morava com meus pais e irmãos na casa de trás, que ficava num terreno bem inclinado. Então, lá de cima do janelão da sala, assistia ao cotidiano do meu avô.

Um dia ele mandou fazer um copo de couro, comprou alguns dados e muitas balas. Inventou uma jogatina para os netos. Mas, ao invés de moedas, apostávamos balas. Felizmente não fiquei viciada em apostas. Infelizmente, em balas. Era a glória voltar para a casa com as duas mãos em conchas lotadas delas. Daquelas de tamarindo. Azedas que só.

Meu avô era o "o cara".

Uma manhã, ao abrir o janelão, dei de cara com o Rogério, um piá que varria o quintal dos meus avós em troca de alguns trocados. Silenciosamente, ele olhou para mim e fez um gesto com a jaqueta de flanela azul-marinho. Uma mímica que, traduzindo, significava: “Seu avô fechou o paletó”.

No enterro, eu e meu irmão tivemos acessos de gargalhadas. Sabe aquela risada nervosa, que balança o corpo e você não consegue domar? E para não fazermos nossos pais passarem vergonha, tivemos que ficar na perifa do cemitério. Se bem que, no velório, meus tios já haviam esgotado todo o estoque de piadas até o final da madrugada.

Um sujeito que morre e deixa todo mundo rindo. Só pode ser "o cara".

23 comentários:

Fábio Adiron disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Rojuh disse...

meu pai tb chamava samuel, e meu avô tb tinha um inseparável violão. e tb tinha um viveiro cheio de passarinhos e uma arapuca que pegava pardais e usava calça de tergal e tinhas as pernas mais magras de todos os tempos ("meu montinho de ossos", minha avó gorducha o chamava afetivamente... ). e eu tb tinha uma vitrolinha portátil e tb adorava os Secos&Molhados. e o enterro do meu avô tb foi legal, pois o menino que eu gostava foi: só me lembro de andar com ele de mãos dadas entre as sepulturas - minha mais diurna lembrança dark-gótica.

eita mania de identificação com quem a gente gosta... kk

Rojuh disse...

ops
Rojuh = Roselene

Gabriela Simionato Klein disse...

Só deu vontade de sentar do lado, assim quietinha, repartindo a lembrança.

Beijos

simone disse...

Cris,fico adimirada como vc passa sentimento no seus textos!!
Ai que saudades......

simone disse...

Cris,fico adimirada como vc passa sentimento no seus textos!!
Ai que saudades......

disse...

Cris, que delícia de memórias...Só reforçou minha determinação em estimular o contato dos filhotes com os avós. Depois a gente guarda boas memórias a vida toda com as estripolias dos velhinhos! Bjs

patt disse...

muito bom ler seu texto. ordenadamente feliz!
é de se sorrir de cabo a rabo.
"Felizmente não fiquei viciada em apostas. Infelizmente, em balas."

Guta Nascimento disse...

cris, adoro seu texto
me faz lembrar de tanta coisa
postei um link lá no blog que inaugurei neste finde
vou te mandar o convite
beijocas pra vc & pras meninas

carina paccola disse...

cris, gostei do seu avô. e vc já era engraçada desde criança. acho que aprendeu com ele. beijos

Ana Silvia Mineiro disse...

Vô é um caso sério. O meu bebia leite com sal e gostava de contar histórias de assombração. Morava numa fazenda onde não tinha luz. À noite, era só lampião. E ele morria de rir da ignorância minha e do meu irmão, até então os únicos netos, em relação aos lampiões. Mandava a gente olhar bem o fogo lá dentro do vidro pelo alto. E a gente saía com a cara toda preta, para a felicidade dele e desespero da minha mãe, que lavava a gente na bacia.
O avô do André, bisavô dos meus filhos, fumava mais de um maço de cigarro por dia aos 80 anos. Quando diziam a ele que cigarro matava, respondia com sua tranqüilidade mineira: fumando assim cheguei aos 80, se parar, vou viver uns 150, é muito.
Mas parou. Foi atropelado por um ônibus, teve traumatismo craniano e no pacto que fez com Deus para sobreviver, naqueles minutos em que vc não está lá nem cá, abriu mão do que mais gostava: pitar seu cigarrinho.
Este ano comemorou 90 anos. Ele e Deus estão em paz.

Carla Martins disse...

Um cara gente boa devia ser o seu avô!

Sinto esse mesmo orgulho descrito no seu texto pelos meus avôs, avós, tios, tias, primos, primas....sou coruja e tenho sorte de ter uma família de ouro! Meus pais, então, vixe...meu tesouro maaaaaaaais valioso!

Sei que família a gente não escolhe, mas, se pudesse, eu teria escolhido exatamente as mesmas pessoas que fazem parte da minha. :)

izabel disse...

Acabei de ler o texto e fiquei sentindo quase como se conhecesse o teu avô. Bateu uma saudade do meu...

Os teus textos são ótimos! Passei horas lendo, parabéns!

:))

Museu do Cinema disse...

Estou ficando viciado nos seus textos, esses "contos" nos faz viajar até os acontecimentos. Parabéns!

Saliel disse...

Eu não conheci nenhum dos meus avôs. Coisa de caçula de família grande. O seu texto lembrou muito a única avó que conheci, só que o que ela fazia era espetar a gente com a agulha quando passávamos distraído perto dela na máquina de costura. E as frases? "Tá pensando muita besteira, vai capinar um quintal!"

Bom, era pra dizer que gostei e vou voltar. (K11? É o mesmo que eu estou penando ? Eu cresci na Califórnia ...) (:

--saff

Cristiana Soares disse...

Puxa, é tão bom ver as pessoas se identificando com os textos que escrevo. Essa é a minha maior alegria. Escrever não só por mim, mas por nós.

E todo mundo que comenta aqui pode estar certo que a primeira coisa que eu faço é ver o perfil, ler o blog... enfim, conhecê-los melhor.

Pena que alguns estão com perfis não disponíveis...

Daqueles que consegui ver, fico muito orgulhosa, porque o nível é alto! Hehehehe...

Cinderela disse...

Nossa toda vez que leio posts falando de avós ou avôs eu choro, incrívelmente eles conseguem fazer isso, mesmo "desconhecidos" mesmo não sendo os nossos, e como lembrei do meu bisavô, que para mim era bem mais próximo que meu próprio avô com quem nunca convivi, quando ele morreu eu e meu irmão falávamos sussurrando ainda um mês depois, acreditando que uma hora ele ia acordar.

Ruslan disse...

Como sempre muito precisa na escolha das palavras.

Flávia disse...

Infelizmente não convivi com nenhum avô, mas já fiquei com vontade só de ler sobre o seu !

Beijinho.

Marcos V. disse...

nesse internetão de meu Zeus há muitos cantinhos que não conheço. Humm, pensando bem, a maioria. Alguns felizmente nunca vi, outros são cantos familiares pra minha memória. Uma sensação aconchegante, déjà vu, que me leva a perguntar como não "me" conhecia esse lugar. Felizmente você deixou um comentário lá no meu blog. Felizmente pra mim, agora estou de inquilino não pagante por aqui.
[]s

Nana Guimarães disse...

de TPM, lendo sobre o seu avô, acabei foi chorando... enquanto ria muito com a história do curupira, o cigarro nas canelas e as gargalhadas no enterro. Ele só poderia ter sido seu avô, realmente era "o cara"....
Beijos!

Ruth Horie disse...

Oi Cristiana! Estava na página do Orkut do Frederico, pois ia postar um recado lá e me vi de frente com o link do teu blog. Cliquei (pura curiosidade - sorry!) e vim parar aqui, neste texto simplesmente ótimo. Eu gosto muito de escrever também. Por isso, digo com certo conhecimento de causa que, olha, tá muito bom mesmo viu? Êta avô porreta sô! Beijos!

fale com ela disse...

Genial. É com esta a palavra que tenho vontade de definir. Não posso escrever mais, porque estou me sentindo com 6 anos e brinco no gramado da casa dos meus pais com o meu nono. Por conta da leitura do teu texto. Não é genial?