Quinta-feira, Março 15, 2007

Sob 14 de miopia, haja personalidade


Conheci o expressionismo antes mesmo de conhecer Van Gogh. Minha alta miopia se incumbia de pintar o mundo a minha volta. Sem nitidez e com lindas cores borradas. Minha mãe foi a primeira a suspeitar dessa visão diferenciada, pois quando eu lhe mostrava objetos, quase os enfiava em seus olhos. Percebendo que eu não tinha tendência a perfurar órbitas alheias por diversão, resolveu me levar a um oftalmologista. Resultado: primeiros óculos aos três anos.

O estilo gatinho não parava sobre o nariz. Pulos e correrias não combinavam com óculos. Se me perguntarem como eu conseguia executar tais estripulias numa paisagem de grânulos estourados, não saberei responder. Sempre penso como seria minha vida se eu nascesse antes da evolução da ótica? Talvez fosse internada em algum sanatório ou cortasse minha própria orelha.

Já adolescente, viajando deitada na traseira de uma pick-up e olhando para um céu noturno, resolvi brincar de tirar e pôr os óculos. Sem eles, as luzes difundiam em todas as direções. As estrelas e, principalmente, a Lua ficavam bem maiores. Um presente dos céus só pra mim. Não estava sob efeito de nenhuma droga. Eram 13 graus de miopia, apenas.

Carregar um par de fundos de garrafa nos córneos não é fácil para uma menina. Na infância, muitas vezes esqueciam meu nome (principalmente os meninos) para me chamarem de “quatro-olho”, “cegueta” e outras lindas palavras com as quais uma garota adora ser abordada. O rosto coberto de sardas aumentava a criatividade dos meninos nas escolhas dos apelidos.

Fui compensando o constrangimento e a vergonha através de um comportamento exageradamente extrovertido e bem-humorado. Características que garantiram minha sobrevivência social. E com isso fui promovida à “maluquinha”, “palhacinha”, “doidinha” etc.

Apesar de me sentir uma solitária existencial desde muito cedo, por literalmente ver um mundo diferente e ainda ser sacaneada por isso, desenvolvi outra habilidade compensatória: observar pessoas. Como e por que elas são como são. Isso, é claro, sob o disfarce da “maluquinha simpática”. E por fim acabei fazendo amigos e influenciando pessoas, tornando-me o que os americanos chamam de “popular”.

Na sexta série, aos 12 anos, fiquei perdidamente apaixonada por Luizinho. Um menino moreno, bonito e um tanto atarracado. O problema era que, apesar de toda minha exposição, Luizinho parecia ser o único que não reparava no frescor da minha existência. Para ele, eu devia ser um micróbio sardento que vivia bem longe, atrás daqueles fundos de garrafa.

Até que um dia, uma amiga fez aniversário. Sabendo que Luizinho estaria na festinha, tratei de descartar meus fortes graus e substituí-los por sombras azuis e rímel preto. A parte difícil foi me maquiar sem quebrar o espelho com meu nariz, tamanha proximidade de um com o outro. A parte fácil foi que, com essa proximidade, todo míope enxerga bem. Isso quando o bafo não embaça o espelho.

Produzi-me inteirinha, com roupas da moda. Era noite e obviamente não enxergava um palmo à frente do pó de arroz. Na ausência de um cão treinado, minha prima foi de guia.

Nem mesmo havia adentrado no local da festa quando encontro (ou melhor, fui encontrada) por Luizinho, que numa reação de surpresa falou comigo como se fosse a primeira vez que havia me visto na sua vida de menudo.

Passei batido. Maior metida. Mistura de insegurança com vingança.

Em seguida a irmã da minha prima-guia veio comentar: “O Luizinho falou que você é linda. E quer namorar contigo”. Deixei patente que agora quem não queria era eu. Quem sabe daquele dia em diante ele prestasse mais atenção em outras qualidades de uma mulher (aos 12, ainda acreditamos nisso).

Três anos depois, já com minhas lentes de contato, pude confirmar o poder que um rostinho sem grossos aros tem sobre os meninos.

Vinte anos depois, usando as lentes desde a hora em que acordava até a hora de dormir, meus olhos começaram a se cansar daquela vida de aparências. Hoje, tenho que alternar os óculos com as lentes. Então sou uma espécie de “o médico e o monstro”.

Meu consolo é acreditar que quando as rugas surgirem, ficarão separadas por 14 graus do meu interlocutor. E serei feliz com minha eterna aparência de jovem maluca.

Já pensei em operar, mas ainda é cedo para confiar na tecnologia. Então, vou aproveitando a vida com minha excelente audição e olfato inigualável. Sem falar no tato, que aprimorei durante todos esses anos.

Enxergar bem pra quê? Se a vida é mais bonita e intensa sob uma ótica expressionista.


37 comentários:

R2K disse...

: )

Anônimo disse...

Muito legal, Cris.
Reconheci a amiga linda e "maluquinha" que encontrei nos corredores da ECO, olhos espremidinhos querendo ler sei lá o quê num daqueles murais. E deu uma saudade...

Bjs,

Henrique

Cin disse...

do alto dos meus quase 2 graus de miopia, confesso que ainda não evoluí a tal ponto... um mundo embaçado, sem contornos bem definidos, me dá agonia, ânsia, gastura, sei lá o quê. um dia eu desencano e me jogo assim, sem medo, neste mundo de frenéticas pinceladas no qual você vive. deixa o grau aumentar... beijoquinhas! ah! eu tb já viajei deitada na traseira de uma caminhonete, olhando o céu estrelado do interior da bahia... é uma das memórias mais bonitas que tenho... e estava sem óculos ; )

Ingrid Littmann disse...

Cris, que bonito relato de uma miope. Eu tenho hipermetropia e conheço essa estoria de longe, eu era daquelas que so usava o oculos nas aulas e olhe lá, hoje ele faz parte do meu dia-a-dia. Porem ando bem que querendo comprar lentes de contato.

beijocas

Mr T. disse...

Eu sempre preferi as de óculos...

André Valongueiro disse...

Cristiana, você escreve maravilhosamente bem. Isso não dever ser novidade para você, mas mesmo assim optei por "chover no molhado" e falar. =]

Os textos me fazem deixar de lado todo o trabalho para ler lentamente tudo o que você escreve. Inclusive citei você lá no meu blog com um dos poucos blogs que acompanho sem vacilar!

Minha miopia até o momento vai em 2,5 graus, mas já deve ter aumentado bastante, visto que fazem aproximadamente 5 anos que não vou ao oculista. Preciso resolver isso!

Grande abraço!

honey disse...

cara
eu acertei muito bem quando achei vc :P
adoro te ler...
esse relato de miopia, de visão das coisas, é simplesmente perfeito!
cada vez mais fico sua fã

honey disse...

ps:
salvei seu texto
mas fica tranquila que eu respeito a autoria se um dia for postar em algum lugar [o q eu acho dificil]
Salvei mesmo só pra ter
;)

LeticiaBúrigoTK-1288 disse...

Cristiana...

Então, aprendendo a conviver com as diferenças desde pequeninha né... Por isso te faz uma mulher madura, experiente e cheia de 'tato' , com certeza!
Parabéns mais um vez pela tua rota, cada dia mais acertada. ;)
Te conto que eu tb tive miopia. Sim, tive! Porque me dei este presente de poder ir ao cinema e sentar no fundo, ir ao teatro e nao levar os oculos, encontrar as pessoas e cumprimentar. Operei e amei.
Com amor,
Leticia

Carla Martins disse...

"A parte fácil foi que, com essa proximidade, todo míope enxerga bem. Isso quando o bafo não embaça o espelho".

Ri muito com essa frase! Genial!

Eu nunca fui ao oculista e enxergo super bem. Mas, já fui gordinha. Eu era mega complexada e tudo piorou quando um amigo do meu tio passou a me chamar de orquinha (ele deveria saber, com seus 20 e poucos anos, que isso pode ser péssimo para a auto-estima de uma criança). Eu saía sempre correndo e ia chorar em um cantinho da casa, quando ele chegava com suas "doces palavras".

Cresci, emagreci e, depois de anos, encontrei com ele de novo: gordo, com cara de velho e com uma filha de cinco anos, cinco vezes mais gorda do que eu era. Pois é, o mundo dá voltas....e eu adoro!!!

Parabéns pelo ótimo texto!!!

Beijos

Alexandre Cortez disse...

humm... tive a sorte de começar a ler esse blog hoje... mais algumas visitas e devo virar fã... parabéns, adorei... bendito Webinsider que me trouxe até aqui... abraços...

carina disse...

cris, minha cegueta linda. amo vc e sua visão sobre o mundo, sobre a vida e as pessoas.
um grande beijo

Bean disse...

que texto-delícia!
minha miopia faz com que eu seja classificada como esnobe. nunca reconheço as pessoas e prefiro não cumprimentar vultos... sabe?
=)
eu uso o tipo indie-nerd, de aros pretos e grossos. Mas ninguém sabe.

Museu do Cinema disse...

Desculpe, mas acho super charmoso uma mulher de óculos.

Gabriela Simionato Klein disse...

Ahhh, isto explica tanta coisa!!!! He, he, he...saudade de vc. Aumentada pelo texto sempre de primeira.

Beijos

Gabriela Simionato Klein disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Cristiana Soares disse...

Henrique, só em vc narrar a cena... já sinto um aperto no coração... ai, ECO da nossas vidas...

Cin, essa viagem que fiz tb vai ficar pra sempre entre as minhas lembranças... E o pior é que viajar na parte traseira desse tipo de veículo é proibido! Como éramos maluquinhas, não?

Ingrid, pois eu conheço essa história de longe só quando coloco os óculos! (desculpe, mas não pude resistir ao trocadilho). Uma das minhas filhas tem hipermetropia. E nenhuma das duas tem miopia, sendo que o pai tb tem. Não são gurias de sorte?

mr.t, vc não conhece meus óculos...

André disse: "Os textos me fazem deixar de lado todo o trabalho para ler lentamente tudo o que você escreve"

Pois esse é um dos maiores elogios que alguém que escreve pode receber. Fico até emocionada. Obrigada.

Honey, vc sou eu ontem!

Letícia, sabe que o que vc disse tem tudo a ver mesmo. Essa vivência me preparou muito para ser mãe da Luísa...

Alexandre, bendito Webinsider que nos leva para vários lugares! Obrigada pela visita.

Carina, o sentimento é recíproco. Minha amiga de fé, minha irmã camarada.

Bean, sabe que tb já passei por altas situações constrangedoras na rua? Falei com gente que não conhecia e deixei de falar com quem conhecia... e acho que o meu óculos tb é mais ou menos desse tipo que vc descreve... Modernex! O que ajuda, mas não resolve...

Museu, vc diz isso porque não viu o meu.

Gabi, hehehe... explica mesmo! Quase tudo!

Paulo: Osrevni disse...

Há uns três dias, a miopia se tornou o meu maior problema. Meus óculos se quebraram, e descobri que uma armação custa 200€, no mínimo, e as lentes, pra lá de 300. Estou só na lente, mas não consigo ficar o tempo inteiro com elas... não sei o que faço. Aceito doações.

eduardo disse...

O seu post me lembrou do doumentário A JANELA DA ALMA... Gostei muito do seu blog.

tchela disse...

Oi Cris. Minha amiga Mary também tem um alto grau de miopia e tem pensado bastante na cirurgia. Ela sempre teve medo, mas, está decidida a deixar o medo de lado e encarar, arriscar.
Sobre seu comentário no Maré (desculpe a demora em respondê-lo), Clifford, o cachorrinho passa no Discovery Kids.
Ah! Só hoje descobri que é autora do texto "piolhos inclusivos"! Eu adorei esse texto! Parabéns!
Beijo

Garamba disse...

Eu operei a miopia. E minha vida realmente mudou. Igual microondas. Quando tive um, me perguntei por que não tive antes. mas... assim... de bobeirinha... Van Gogh não era Impre...?

Cristiana Soares disse...

Paulo, os preços daí se igualam aos daqui. Paguei "em vezes". E para doar... bem, meus óculos antigos não te cairão bem. Tenha certeza.

Eduardo, vc acredita que eu ainda não consegui ver esse filme?? Será que tem em DVD?

Tchela, estou deixando para operar quando não tiver mais jeito... se bem que um cão-guia me parece mais simpático...

Sobre o "Piolhos inclusivos", obrigada. Escrevi esse texto como um desabafo. É aquilo lá. Sem tirar nem pôr.

Garamba, caro amigo. Pelo que pesquisei no nosso Oráculo-Google, Van Gogh foi inicialmente impressionista e depois expressionista. E, pelo que entendi, ele foi mais "expressivo" no expressionismo.

Se houver um estudioso ou professor de história da arte de plantão, manifeste-se.

Honey disse...

ôôÔôÔ atualiza!!!

Cristiana Soares disse...

Calma, mulher! Há uma fila de trabalho na frente!

Alice disse...

Sensacional esse post! Adorei! Olha, conheço várias pessoas que fizeram a cirurgia da miopia e nasceram de novo... Mas, pensando bem, o que os olhos não vêm o coração não não sente. Para qualquer eventualidade, é só tirar as lentes! ;)

Juliana Vale disse...

Oi, Cristiana. Acabei de ver seu comentário lá no blog. Obrigada! O seu tb é muito interesante. De fato, os outros leitores têm razão: vc escreve mto bem. Vou passar a frequentar este link. Aqui em Pequim, tô trabalhando (freela, escrevo matérias pro Brasil e pra Espanha - onde morei nos últimos 6 anos), estudando chinês (bom, tentando, no tempo livre) e vivendo experiências insólitas (como as q já relatei no blog). Decidi vir pra cá, este ano, pq morria de curiosidade de conhecer a Ásia. Gosto de ir trocando de país. Vou ficar aqui até depois das olimpíadas, final do ano q vem. Mas, pra não acabar com seu espaço de comentários, vamos seguir o papo por e-mail. Não tenho o seu. O meu é cachorrofrito@julianavale.com. Saludos!

Moskito disse...

Cristiana, tu é foda.

Não conhecia teu blog, li o primeiro post (sobre parto) e achei bom. Li o segundo e tu tens agora um novo fã.

Hahaha

Parabéns, pelo texto e pela forma de levar a vida (se forem fatos relatados no texto)

Moskito disse...

Êpa, conhecia sim e inclusive uma vez pedi autorização para publicar um texto teu uma vez.. haha

Então tu VOLTOU a ter um fã.

Até mais (:

osvjor disse...

esse seu post me fez pensar que talvez o meu olfato tão apurado seja uma compensação pela minha miopia (não tão grande como a sua, mas igualmente incapacitante se os óculos não se encontrarem sobre o nariz)...

Ricardo disse...

Ei Mr Magoo,

A vantagem dos míopes (única talvez)
é que vemos o mundo como uma grande tela de Monet.

lcs disse...

"observar pessoas" :P
Esse é o segredo :P

Muito bom o texto , parabens ..

jorge cordeiro disse...

VIva as mulheres de oculos!!! Sao tao ou mais charmosas do que as de aparelho nos dentes!!!

VTR disse...

Nossa Patricia eu poderia copiar essa sua historia e falar que a minha... minha vida foi a mesma coisa, comecei com oculos aos 3 anos e sempre fui muito introvertido em funçao disso, na adolescencia descubri a lente e sem ser convencido as garotas me adoravam, eu fazia o maior sussesso, só que agora com o uso continuo de lente tive alguns probleminhas não graves e não posso mais usar lentes e nem operar, e agora parece q voltou a ser como era antes, as garotas não olham mais pra mim e muitas vezes nem se lembram do meu nome, mas se Deus quiser vai ficar tudo bem... abraço

VTR disse...

Foi mal escrevi Patricia ao Invez de Heloisa... Heloisa vc é d+

vtr disse...

Cristiana, foi mal agora que eu vi o seu nome to loco.... bjão vo compra seu livro

Deds disse...

Engraçado. Uso oculos ha anos, com o agravante de ser alergica a lentes. Ou seja, minha vida vem sempre quase que em um formato televisivo rs Mas sobre mim os oculos tiveram efeito distinto: me tornaram mais introspectiva.

Bjs

Anônimo disse...

ola querida,linda a sua historia,tenho miopia e astigmatismo,meu grau è de 2,75 no meu olho direito e no meu esquerdo e de 2,70,meu oculos fazem parte da minha vida,nao penso em fazer cirurgia(tenho medo).minha miopia aumenta a cada vez que vou ao oculista,tenho 17 anos,durante meus anos na escola tambem jurgiram muitas piadas e criticas da parte de algums colegas de clase,eu sempre ficava triste,hoje nao e mais assim...
nao posso tirar meus oculos ,porque vejo tudo enbaçado,e mesmo com o oculos as vezes è dificil exchegar de longe,mais sou uma pessoa que nao liga muito para isso..mais as vezes tenho medo de ficar cega,acho que meu mundo acabaria..bju