Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Daspu na Bienal

Nem a Daslu conseguiu impedir. Daspu na Bienal. A grife de roupas criada pela ONG Davida, que promove a cidadania das prostitutas, está exposta no Ibirapuera num estande de 130 metros quadrados localizado no terceiro andar.

A idéia foi do artista esloveno Tadej Pogacar, originalmente o “dono” do espaço na Bienal. Ele convidou a ONG Davida para participar do seu projeto CODE:RED, que examina e pesquisa modelos de economia informal, ativismo e auto-organização de minorias urbanas no contexto de trabalhadoras do sexo e do tráfico humano.

Divertido ver a reação do público ao ler os dizeres das camisetas do tipo “As mulheres perdidas são as mais procuradas” e ao ver o vídeo, produzido pela equipe de Tadej durante o desfile da grife na abertura da Bienal, que roda no estande durante tempo integral.

Em entrevista para o programa GNT Fashion, a coordenadora da Davida, Gabriela Leite, diz à apresentadora que não acredita até hoje ter chegado ao lugar que chegaram.

Impressionante mesmo a trajetória da grife, fundada em julho de 2004. No mesmo ano já aparecia na grande mídia e foi ameaçada de processo pela Daslu (loja adotada pela elite brasileira, da qual foi parodiado o nome).

Ironicamente, hoje quem está sendo processada por sonegação de impostos e outros crimes é a própria Daslu, sem muita moral para levar à frente algum processo em relação a quem quer que seja.

Enquanto isso, a Daspu continua em movimento emergente, ganhando espaço nacional e internacional. Nos circuitos fashion, artístico e da militância. Com o apoio até mesmo do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

A grife vem protagonizando desfiles nas ruas e em espaços fechados das grandes capitais brasileiras, com a participação de artistas como Betty Lago e Marisa Orth. Algumas boutiques multimarcas brasileiras já estão revendendo suas peças.

Uma das proezas da Daspu aconteceu em agosto deste ano, com a apresentação da coleção primavera/verão, em parceria com a ModaFusion, no Prèt à Porter Paris. Chique não?

Na Bienal, o destaque fica por conta do vestido de noiva criado pela estilista Rafaela Monteiro, da Daspu, feito a partir de lençóis de hotéis e motéis, ornamentado com desenhos de casais copulando. A grinalda é feita de camisinhas.

Veja aqui o vídeo gravado sobre o vídeo original do desfile, exposto no estande da Bienal, acompanhado da trilha funk “Daspu é uma puta parada. Daspu é uma parada de puta”.

Às vezes é bom morar no Brasil. Saí da Bienal com o funk na cabeça e feliz em estar viva para ver o despertar das minorias oprimidas.

4 comentários:

carina paccola disse...

eba, vou ser a primeira a comentar. ótimo texto. ótima matéria. eu queria ter visto tudo isso, na sua companhia.
beijos

Cristiana Soares disse...

Bem, Carina, a Bienal fica até 17 de dezembro. Estou te esperando pra gente balançar aquele coreto.

mayaa disse...

Obrigada por nos proporcionar momentos de boa leitura!!
Estava pesquisando aquele endereço q saiu na tv e encontrei um texto seu em espanhol,gostei muito http://www.pasoapaso.com.ve/motiva/motiva126.htm

haa.. e aqui tbm tem noticia da daspu http://malokeletrika.blogspot.com/2005/12/longa-vida-daspu.html
Abraços.

Cristiana Soares disse...

Mayaa, li o post da Daspu que vc recomendou acima. Muito bom. Mas não entendi seu posicionamento em relação as duas grifes... Sobre o texto em espanhol, na verdade eu o escrevi originalmente em português. Uma ONG venezuelana me perguntou se eles poderia traduzí-lo e eu disse que sim. Esse texto ganhou o mundo. Na época, a Luísa tinha 10 anos e até então havia sido criada somente por mim. No começo desse ano, ela já com 13, foi morar com o pai. É o único dado defasado do texto. O resto todo continua atual. E me emociono cada vez que o leio.